O amor pela vida não tem tempo... ame hoje, ame tudo, ame muito!
by Jun 01, 2007
Hoje tive meu primeiro contato com a fragilidade e magnitude da vida humana.
Hoje tive a minha primeira perda humana inesperada, perda de uma amiga querida, uma vida em curso, que, pela força da vida, teve seu caminho alterado, mudado e colocado em outra dimensão... Esta não foi, no entanto, a primeira perda de alguém quem eu amava. A vida já me separou de meus dois avôs, os dois eu amava demais, especiais.
Hoje tive meu primeiro contato com a fragilidade e magnitude da vida humana.
Hoje tive a minha primeira perda humana inesperada, perda de uma amiga querida, uma vida em curso, que, pela força da vida, teve seu caminho alterado, mudado e colocado em outra dimensão... Esta não foi, no entanto, a primeira perda de alguém quem eu amava. A vida já me separou de meus dois avôs, os dois eu amava demais, especiais.
Tive a sorte de te-los como meus avôs, cada um do seu jeito. Um deles, meu vô materno, Athayde Pereira de Andrade, um cara lindo, loiro, de olhos azuis, que aos 37 anos de idade ficou cego e paralitico, e, apesar do médico ter lhe dado apenas mais tres meses de vida, por causa de uma "doença fatal", teimou em viver e só morreu aos 80 anos... extretamente lúcido, contando histórias dos tempos em que andava livre pelas terras de minas gerias... Estas histórias eu amava.
Meu vô Thayde, cinéfilo, que vivia levando minha avó para o escurinho do cinema, depois de perceber que habitaria o escuro por todos os dias que viriam, e foram muitos os dias, não abandonou o mundo. Ao contrário. Virou rádio amador, me lembro com alegria das tardes em que, ainda bem criança, chegava a casa dos meus avós para o almoço do domingo e só de ouvir minha voz, meu vô me chamava em sua oficina, para que o ajudasse a manipular aquela aparelhagem gigantesca, que mais me lembrava a sala de justiça do desenho animado, cheia de botões e microfones.
Foi ali, sentadinha ao lado do meu avô. no quartinho dos fundos da casa, apelidada de oficina do vovô, que eu aprendi o valor das palavras para o mundo, da comunicação. Ouvia as histórias que meu avô contava e, ali, tão cega quanto ele, naquele quartinho escuro e ainda tão nova de bagagem visual, que eu enxerguei Minas Gerais sem nunca ter estado lá ate então, vi as beatas das igrejas, vi as ruas enlamaçadas de chuva, as árvores carregadas de fruta, os bordéis, e até mesmo a história que lembro até hoje, a do julgamento de um homem de rua, que, após ser xingado diariamente por um grupo de meninos mimado, jogou um guarda-chuva contra um deles, cegando-o, sem intenção. No seu julgamento,o advogado deste homem de rua apenas repetia, insistentemente, a frase: "senhor promotor, senhores jurados, senhor juiz", durante horas, irritando a todos...(vovô me contava esta história interpretando cada personagem, cheio de dramaticidade... e eu me divertia) Até que, concluindo sua defesa, o advogado argumentou: "Se eu o irritei repetindo esta frase inocente por apenas algumas horas, o quanto estes meninos não irritaram o pobre homem repetindo todo dia, diariamente, xingamentos ofensivos contra ele, pelo simples fato dele ser pobre e morar na rua?" O juiz o absolveu. Meu avô contava esta história sempre. E eu ouvia, toda vez, com a atenção de quem nunca a tinha escutado, porque sabia que vovô Thayde sempre acrescentava um detalhe novo. E assim foram os anos até o dia em que fiz 15 anos e a gente se despediu. Ele se foi, se desprendeu da casquinha humana cega e paralitica na qual viveu por mais de quarenta anos e vôou para longe, deixando em mim uma imensa saudade e a paixão pelas histórias humanas.
Uma vez perguntei ao vovô se ele gostaria de voltar a enxergar. Ele disse que nao. Que mesmo que houvesse um avanço milagroso na medicina, que o fizesse voltar a ter visão, ele optaria por não mais enxergar; Eu não entendi aquela resposta, questionei, indignada. E ele, com sua simplicidade poética e franciscana, respondeu, como se estivesse me mostrando o obvio: "Manoela, eu já tenho você na minha imaginação, tenho sua mãe, tenho toda a família, para cada um eu fiz um traço, um rosto. Tenho sua vó eternamente linda, no alto dos seus 26 anos e é assim que quero levar vocês comigo. É assim que amo vocês". Eu compreendi ali, que a vida sempre encontra um caminho de trazer a beleza à tona, e que para enxergar isso, não basta ter olhos, é preciso ter visão, e esta visão é tangivel até mesmo para os cegos..
Saudade do meu avô, este homem tão especial, meu primeiro melhor amigo, meu companheiro de viagens imaginárias, um menino eterno. Agradeço a vida, por ter tido 15 anos de convivência com esta alma tão iluminada.
Mas a vida me foi generosa demais e me brindou, ainda, com o meu vô Cesar, vovô José de Almeida Cesar, tão quietinho, o oposto do vo Thayde, que falava e tinha verdadeira paixão pelas palavras, vovô Cesar era calminho, na dele, mas, ao mesmo tempo, tão carinhoso, tão acolhedor, tão querido, e não menos travesso. Tão travesso que foi embora sem me deixar dizer adeus, e nem agradecer por tudo que ele fez por mim, a primeira neta, a neta que ele acolheu com tanto zelo, desde sempre... Sem deixar ninguém interromper seu curso, vovô foi embora depois de dançar na sala de casa, ao som de um CD de tango que ganhou ao comprar a revista caras, uma de suas coleções.. e ele se foi fazendo o que mais gostava de fazer: indo comprar pão para o lanche da tarde. O pão quentinho, que, em sonho, um mês depois de partir, vovô me disse saborear diariamente, lá em cima, onde imagino que faça lanches deliciosos, todos os dias, na companhia de Deus..
Vovô Cesar adorava saber que a familia estava bem, bem alimentada, bem aconchegada, e quase não falava, como se não quisesse perturbar a paz que tanto prezava. Descendente de índios, vovô Cesar veio do Norte para Niterói com a missão de trazer ao mundo, ao lado de vovó Edna, quatro filhos, que trariam ao mundo oito netos (com mais um a caminho.. :) ) Vovô era chegado a tecnologias e pequenas novidades, adorava colecionar coisinhas, recortava selos do jornal e ansiava em competar os pontos que o dariam direito a ganhar mais uma coleção de livros de inglês - ele tinha duzias de coleções de livros de idiomas... ou então relógios, despertadores, ferramentas, albuns de retrato, máquinas fotograficas - estas, então, ele tinha uma nova a cada ano.. foi dele a primeira maquina que vi do tipo polaroid, que imprimia a foto na hora. E é dele também a Super 8 que herdei..
Nos ultimos anos de vida, Vovô Cesar deu para tirar fotos de coisa nenhuma.. quando a gente levava os filmes para revelar, surpresa: era um tal de cantos do jardim, pedaços do sofá. da grama, de mesas de plástico sem nada em cima.... e depois ele explicava, rindo: "é que eu bem vi um homemzinho sentado ali no jardim, tiro estas fotos para ver se consigo mostrar eles pra vc", ele me dizia, rindo rindo.. uma risadinha tipica dele, de menino quando esta fazendo arte. Mais típico do vovô Cesar do que sua risadinha era seu cumprimento com a gente, um aperto de dedinhos, um gesto carinhoso, quando ele estendia a mão para a gente e, ao inves de dar um aperto de maos, apenas tocava a ponta dos dedos nas pontas dos nossos dedinhos, fazendo um barulhinho engraçado.
Nunca tinha escrito sobre meus avôs. O amor que sinto por eles é tão grande e essencial em mim que acho que nunca precisei externar isso antes. Mas hoje, ao ver minha amiga querida Laura ir embora, senti um amor tão grande pela vida, uma alegria profunda de estar no mundo e de ter tido a chance de conhecer esta minha amiga, de ter ouvido suas gargalhadas escancaradas enquanto me atendia ( ela era, além de amiga, minha dentista) suas piadas quase pornograficas ditas sem pudores, porque esta minha amiga foi sempre tão ocupada em ser feliz e em viver, que pudores e moralismos nunca ocuparam o mesmo espaço que ela. Vendo ali, os amigos reunidos e tocando violão, tocando Bob Marley para ela, que, deitada, ainda exibia o belo sorriso que fazia de si mesma seu melhor cartão de visitas.
Chorei muito. Mas me senti tão quentinha ali, tão acolhida por ela, pela vida, pela música, pelos abraços, que saí de lá triste, sim, mas também feliz, feliz pela certeza de que a vida vale a pena ser vivida. Senti um amor proprio muito verdadeiro. Hoje, depois de tudo isso, de ir ainda ao trabalho, de estar com amigos, ao chegar em casa, antes do banho, me olhei e pensei o quanto eu também me amo.
O quanto amo a vida que mora em mim, o quanto amo cada pelinho, cabelo, unha, que crescem em mim a cada dia. Amo cada pentelho que nasce, porque ele me mostra que estou viva, que a vida está pulsando e me lembrando de vive-la. Amo meu rosto, meu corpo, cada célula, meu sangue correndo nas veias,,, este amor nao depende de eu estar com o corpo em forma, de eu ter o rosto irretocável ou o cabelo da Gisele Bundchen, de eu ter um peito firme e durinho, nada disso... Este amor proprio vem da certeza de que neste exato momento estou na Terra, viva, assim como cada um que eu amo que esta por aqui, e amo a possibilidade de, ao terminar este post, pegar o telefone, ligar para os meus pais, para os meus tios e amigos e amores e dizer que estou viva e pronta para estar com eles, indenpendente de qualquer outra coisa, de erros ou mágoas, porque, tudo isso é pequeno... grande é a vida. grande é a morte, também.
grande é o milagre de nos conhecermos e nos amarmos, pelo tempo que durar a vida, que seja inteiro, que seja vivo. eu amo vocês, amo as pessoas que cruzam ou cruzaram meu caminho e me fizeram estar aqui hoje, eu amo até os meus ex, eu amo até mesmo as atuais dos meus ex, porque elas cuidam de quem já cuidou de mim, e a vida segue seu fluxo...
a vida tem que fluir,que sejamos sabios de não interromper o fluxo das coisas antes que o milagre da vida e da morte o façam por nós...
Como diz um amigo que eu amo tanto, o verbo da vida é deixar o amor fluir... para todas as direções. em especial, para dentro de si, amém, que meus amores, todos, tenham paz e luz.
Que meu novo irmao/irmã tenha luz em sua chegada ao nosso planeta, que se sinta acolhido e amado por este universo tão rico, junto ao texto, deixo esta foto de Vovó Edna e Olivinha, avó e neta, celebrando o grande milagre da vida: o amor.
amo vcs!
Um comentário:
pudessemos então olhar pras pessoas e ler as coisas antes de ditas, escritas.
teria sabido da primeira vez que te vi que o que você não quisesse, não precisasse, nem nunca fosse dizer, ainda assim me faria chorar.
beijo grande,
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