quinta-feira, 19 de março de 2009

Confissões de uma refugiada! =)


15 de março - O Dia em que tomei refugio no budismo, isto é, o dia em que optei, diante de um mestre, o nosso monge da KTC, Khenpo Khenrab, a seguir os ensinamentos budistas para o bem de todos os serem senscientes.

Na hora muita coisa pela nossa cabeça. É lindo. É forte e dá medo. É uma grande decisão, no sentido de ser uma decisão muito abrangente, que estará comigo em cada pensamento, palavra e gesto que direcionarei ao mundo. Um grande exercício de auto-observação e auto-conhecimento.

Como falei, na hora pensamos em muitas coisas. Mas ao contrário de grandes teorias filosóficas, dois pensamentozinhos não saíam da mente: o sashimi de salmão, meu prato predileto, disparado. E o carrapato do Kalu. Sério, explico:

Ao tomar refúgio, comprometo-me a nunca mais matar nenhum ser vivo. Ou seja!! Não posso mais matar nenhum bichinho, nem mesmo os carrapatos do meu Kalu. Afinal, os carrapatos também estão em evolução né.

E pelo mesmo motivo, comer um animal é compactuar com o interrompimento de sua vida antes do fim de seu ciclo... Ou seja, um momento de graaande desapego: abrir mão do meu prato predileto, adeus salmaãaao! Ai que dificil, Buddha!

Mas vamos que vamos. E vamos bem ó, hoje por exemplo, achamos uma amiga não muito bem-vinda na nossas plantas da varanda: a senhora lacraia, senhora mesmo, graaande, escondida nas folhagens... E nao podíamos hospedá-la por muito tempo, temos uma pequena ferinha em casa que adora caçar animaizinhos sem saber que pode ser picado por eles.

Então, o primeiro impulso foi pegar um chinelo para matá-la, claro. Mas aí, depois de alguns segundos de profunda reflexão e inspiração em Buddha, uma idéia mais fofa: Rafael embrulhou a bichinha em um saquinho e jogamos ela para fora de nossa casa, sem matá-la.

Um grande exercício para nossa iluminação! E assim a iluminação chegará. Um dia ela chega! =)

quarta-feira, 4 de março de 2009

O MUNDO começa dentro da minha casa

Ai..

Hoje li um post intitulado "cuidado com o esquerdismo tosco" no blog "oleododiabo" (que nomezinho de mau gosto...) que falava muito mal do artigo de um antigo amigo do Fazendo Media, projeto que ajudei a criar na época da UFF e que hoje em dia não tenho mais contato, mas ainda nutro algum carinho nostálgico dos tempos em que também acreditava que esquerdas e direitas eram coisas distintas e não via a unicidade entre elas...

Bom, por que estou falando disso? E por que comecei a escrever às 10h57 da manhã com um preguiçoso "Ai.."?

Na verdade, me enche um pouco a paciência ver que as pessoas ainda se prendam tanto ao conceito de esquerdas e direitas que a política de décadas atrás nos fez acreditar que existiam.

Me irrita, na verdade, ver que textos deste tipo sejam reflexo da incapacidade destas pessoas em enxergar a grande simbiose e interdependência que existe entre estas duas linhas de frente do mundo politiquês. Se a direita não existisse, a esquerda tão pouco teria nascido. Se a crença da direita não esmagasse as pessoas contra a parede da miséria, a crença da esquerda não cuspiria tanta raiva diante das cercas que separam os que têm dos que sonham em ter...

Durante muito tempo estive no lado esquerdo desta cerca, acreditando que somente por meio do grito e da força (até em luta armada chegava a cojitar na época da UFF, achando que o MST, por exemplo, era às vezes até muito passivo diante das sacanagens do latifundio) a gente mudaria o mundo! Mas isso era quando ainda acreditava que o mundo era cheio de compartimentos, segmentado, assim como as coisas que eu construía em minha vida, assim como eu via a mim mesma... E assim, segmentada, cheia de preconceitos e pouca consciência, eu acreditava que mudaria o mundo?

Mas pera lá, cara pálida, mudar o mundo? Respira aí e me responda: você, que segura esta bandeira, já mudou a si mesmo?
Já enxergou suas próprias "direitas e esquerdas" em conflito dentro de você?
Já equilibrou os impulsos egoístas que brigam com a sua compaixão?
Já separou o seu lixo hoje?
Já levou uma sacolinha retornável para fazer compras?

Tempos para cá, muita coisa aconteceu. Mudanças grandes, saí da redação em que trabalhava em editorias estanques, saí da casa da minha mãe, onde meu espaço era separado pela porta que, em geral, eu fechava para me sentir mais "em contato" comigo...

Conheci um cara que mudou e muda, a cada dia que acordo ao seu lado, a forma como me relaciono com o mundo, porque ele me ajuda a acreditar na confiança que tenho de ter em mim, em nós, e, especialmente, no mundo onde vivemos, este sim, coletivo e integrado. E me casei com ele, porque, com ele, minha casa faz parte do mundo e se abre para a vida. Desde o shampoo, à organização da comida, dos sacos de lixo, do iogurte e chegando à nossa relação a dois, tentamos fazer tudo da forma mais orgânica que podemos.

Porque hoje acredito que um compromisso consciente com "O MUNDO" começa dentro da minha casa. Dentro da minha mente, ao alcance dos meus braços. É saber olhar e ver o outro na tua frente. E ver o outro. Entende?

Muito diferente de panfletos vazios, gritos que xingam e culpam os governos, os políticos e os patrões, que, enfim, insistimos em projetar como as tetas da mamãe que acreditamos ainda poder mamar e sugar, sem se responsabilizar, sem um compromisso real, pessoal, de cada um, está uma responsabilidade consciente e extremamente pessoal. "Íntima e pessoal".

E isso, queridos, não pode ser imposto. Não é supostamente alertando "os companheiros" sobre um suposto "cuidado com o esquerdismo tosco" que conseguiremos ir muito além de meia dúzia de xingamentos mútuos, catarses coletivas de infantilidade passiva, e resultados muito aquém do amor que O MUNDO precisa...

A consciência coletiva é uma grande conquista adquirida depois que decidimos parar de culpar o que nos é externo e iniciamos uma nova perspectiva, na qual tudo é uma coisa só. E não há mundo que mude sem que iniciemos uma grande mudança em nós mesmos. Concorda?



terça-feira, 3 de março de 2009

Vacuidade e compaixão

Posted: 02 Mar 2009 06:01 PM PSTO

Buda disse:

Saiba que todas as coisas são assim:
Uma miragem, um castelo de nuvens,
Um sonho, uma aparição,
Sem essência mas com qualidades que podem ser vistas.
Saiba que todas as coisas são assim:

Como a lua num céu brilhante
Em algum claro lago refletida,
Ainda que para aquele lago a lua jamais se moveu.
Saiba que todas as coisas são assim:

Como um eco que provémDa música, sons e lamentos,
Embora nesse eco não haja melodia.
Saiba que todas as coisas são assim:

Como um mágico que fabrica ilusões
De cavalos, bois, carroças e outras coisas,
Nada é como parece.

A contemplação dessa qualidade da realidade em que ela é similar ao sonho não precisa de modo algum nos deixar indiferentes, desesperançados ou amargurados. Ao contrário, ela pode revelar em nós um humor cálido, uma suave e forte compaixão que mal sabíamos que existia em nós, e uma generosidade cada vez maior para com todos os seres e coisas.

O grande santo tibetano Milarepa disse: "Ao ver a vacuidade, ter compaixão". Quando através da contemplação vemos de fato a vacuidade e a interdependência de todas as coisas e de nós mesmos, o mundo se revela numa luz mais brilhante, fresca e viva, como a rede de jóias com infinitos reflexos de que falava o Buda.

Então, já não temos que nos proteger, nem precisamos fingir, e aos poucos se torna fácil fazer o que nos diz o conselho de um mestre tibetano [Chagdud Tulku Rinpoche]:

Reconheça sempre que a qualidade da vida é como a de um sonho e reduza o apego e a aversão. Pratique a boa vontade com todos os seres. Seja amoroso e compassivo, não importa o que os outros façam. O que eles farão não tem tanta importância quando você vê tudo como um sonho. A arte é manter a intenção positiva durante o sonho. Esse é o ponto essencial. Essa é a verdadeira espiritualidade.

Sogyal Rinpoche (Tibete, 1947 ~)"O Livro Tibetano do Viver e do Morrer"