quarta-feira, 4 de março de 2009

O MUNDO começa dentro da minha casa

Ai..

Hoje li um post intitulado "cuidado com o esquerdismo tosco" no blog "oleododiabo" (que nomezinho de mau gosto...) que falava muito mal do artigo de um antigo amigo do Fazendo Media, projeto que ajudei a criar na época da UFF e que hoje em dia não tenho mais contato, mas ainda nutro algum carinho nostálgico dos tempos em que também acreditava que esquerdas e direitas eram coisas distintas e não via a unicidade entre elas...

Bom, por que estou falando disso? E por que comecei a escrever às 10h57 da manhã com um preguiçoso "Ai.."?

Na verdade, me enche um pouco a paciência ver que as pessoas ainda se prendam tanto ao conceito de esquerdas e direitas que a política de décadas atrás nos fez acreditar que existiam.

Me irrita, na verdade, ver que textos deste tipo sejam reflexo da incapacidade destas pessoas em enxergar a grande simbiose e interdependência que existe entre estas duas linhas de frente do mundo politiquês. Se a direita não existisse, a esquerda tão pouco teria nascido. Se a crença da direita não esmagasse as pessoas contra a parede da miséria, a crença da esquerda não cuspiria tanta raiva diante das cercas que separam os que têm dos que sonham em ter...

Durante muito tempo estive no lado esquerdo desta cerca, acreditando que somente por meio do grito e da força (até em luta armada chegava a cojitar na época da UFF, achando que o MST, por exemplo, era às vezes até muito passivo diante das sacanagens do latifundio) a gente mudaria o mundo! Mas isso era quando ainda acreditava que o mundo era cheio de compartimentos, segmentado, assim como as coisas que eu construía em minha vida, assim como eu via a mim mesma... E assim, segmentada, cheia de preconceitos e pouca consciência, eu acreditava que mudaria o mundo?

Mas pera lá, cara pálida, mudar o mundo? Respira aí e me responda: você, que segura esta bandeira, já mudou a si mesmo?
Já enxergou suas próprias "direitas e esquerdas" em conflito dentro de você?
Já equilibrou os impulsos egoístas que brigam com a sua compaixão?
Já separou o seu lixo hoje?
Já levou uma sacolinha retornável para fazer compras?

Tempos para cá, muita coisa aconteceu. Mudanças grandes, saí da redação em que trabalhava em editorias estanques, saí da casa da minha mãe, onde meu espaço era separado pela porta que, em geral, eu fechava para me sentir mais "em contato" comigo...

Conheci um cara que mudou e muda, a cada dia que acordo ao seu lado, a forma como me relaciono com o mundo, porque ele me ajuda a acreditar na confiança que tenho de ter em mim, em nós, e, especialmente, no mundo onde vivemos, este sim, coletivo e integrado. E me casei com ele, porque, com ele, minha casa faz parte do mundo e se abre para a vida. Desde o shampoo, à organização da comida, dos sacos de lixo, do iogurte e chegando à nossa relação a dois, tentamos fazer tudo da forma mais orgânica que podemos.

Porque hoje acredito que um compromisso consciente com "O MUNDO" começa dentro da minha casa. Dentro da minha mente, ao alcance dos meus braços. É saber olhar e ver o outro na tua frente. E ver o outro. Entende?

Muito diferente de panfletos vazios, gritos que xingam e culpam os governos, os políticos e os patrões, que, enfim, insistimos em projetar como as tetas da mamãe que acreditamos ainda poder mamar e sugar, sem se responsabilizar, sem um compromisso real, pessoal, de cada um, está uma responsabilidade consciente e extremamente pessoal. "Íntima e pessoal".

E isso, queridos, não pode ser imposto. Não é supostamente alertando "os companheiros" sobre um suposto "cuidado com o esquerdismo tosco" que conseguiremos ir muito além de meia dúzia de xingamentos mútuos, catarses coletivas de infantilidade passiva, e resultados muito aquém do amor que O MUNDO precisa...

A consciência coletiva é uma grande conquista adquirida depois que decidimos parar de culpar o que nos é externo e iniciamos uma nova perspectiva, na qual tudo é uma coisa só. E não há mundo que mude sem que iniciemos uma grande mudança em nós mesmos. Concorda?



Nenhum comentário: